22.12.25

Tanta inteligência para nada



Pior que a verdade é essa: achamos que somos inteligentes, que descobrimos os problemas do mundo e que, agora, bastariam alguns ajustes para resolvê-los, mas que, quando vamos colocar a mão na massa, o que é que acontece mesmo?

Ah! Nada...

Sim, nada! Absolutamente nada! E por qual motivo isso acontece? Aliás, por qual motivo não acontece, melhor dizendo. Porque buscamos resolver problemas lá longe, do outro lado do mundo, quando os verdadeiros problemas não estão sequer há um palmo de distância. Mas isso não é algo incomum, surreal, que só acontece com pessoas perturbadas ou alguma coisa do tipo. Essa preocupação que o brasileiro, por exemplo, têm com os japoneses, ainda assim em algum multiverso, ou essa coisa de dar conta dos problemas europeus, também em alguma dimensão paralela, não é algo do além, com se fosse algo inserido via abdução. Não mesmo! É que a tal da interne causa esse efeito medonho de fazer o problema da "Caixa Prego" parecer mais urgente do que aqueles que realmente são.

Só que não adianta colocar a culpa na internet, pois ela, por si só, é apenas um meio onde coisas acontecem. Ok, ok, mas o que eu estou querendo dizer com isso? Simples, ô cara pálida: que este exato ambiente virtual, pelo fato de possibilitar a realização de coisas que não necessariamente as pessoas fazem cara a cara, somando-se à isto a velocidade com que acontece a comunicação [transmissão de dados, na verdade, já que nem sempre aqui se fala coisa com coisa] e o fato de muita gente se basear nisto [a net] como se fosse a própria realidade, faz com que a preocupação de um japa otaku, lá em Hamamatsu, esteja a um link, a uma troca de mensagens em algum fórum sobre Naruto, especialmente por muitos jovens já se comunicarem em inglês, seja de um jeito enrolado, com auxílio de tradutor, ou porque é desenrolado mesmo, ainda que tenha feito algum cursinho etc.

Então o japa, lá de Hamamatsu [não sei de onde tirei esse lugar, talvez de algum delírio — só pode], conecta-se com algum brasileiro e, conversando com ele sobre Naruto, também não deixa de tratar de assuntos mais próprios do seu cotidiano, do que lhe é mais próximo e pertinente ao contexto do anime. Esse é o poder da internet, por um lado, pois, de outro jeito, os terremotos, os tsunamis, as nevascas do Japão não poderiam ser preocupações para um caboclo que mora no nordeste do Brasil, cujos problemas tem mais a ver com secas, falta de saneamento básico ou mesmo a criminalidade, que não permite aos jovens assistirem seus entretenimentos de otakus na rua ou no ônibus, já que os ladrões estão cada vez mais impiedosos, não é mesmo?

Dessa forma, o entretenimento se torna cada vez mais uma fuga para jovens, que consomem uma realidade que não conseguem praticar na vida real! Não é que animes sejam ruins [Naruto até seria, pois há sempre Samurai X, Fullmetal Alchemist, Evangelion como opções melhores — não fique #chateado se não concordar], mas é que as lições apreendidas nessas animações, que têm a ver com um contexto de um país muito diferente, parecem impossíveis aos mais novos no Brasil. Eles querem praticar o bem, adotar condutas de respeito, perseverança, amizade, mas se encontram amordaçados por uma desgraça cultural onde impera os extremos, seja pela visão reacionária, que vê mal em tudo, ou por uma agonia avassaladora [de gente burra mesmo, desculpe], que não deixa a pessoa pensar no que está fazendo. Lembro-me do programa "Hermes e Renato" [era preciso, nos anos 90, sintonizar as antenas das TV's em UHF para captar o sinal da MTV], do "programa" do "Cláudio Ricardo" [cata aí na net, vai], quando foram lá as bandas "Coração Melão" e "Massacration" [que era pra ser fictícia apenas, mas que se tornou real], onde para aquela [que era de Axé Music] um perfil humano desenhado num papel era sempre algo de cunho sexual e que, para esta [de Heavy Metal], um desenho sempre significava algo do demônio. Certo, mas o que isso tem a ver?

Tudo!

Os jovens no Brasil estão olhando para os debates e não estão se identificando com absolutamente nada! Nada dialoga com eles. Ou tudo é bom, lindo, maravilhoso [quando claramente não é, né?], ou tudo é ruim, péssimo, um verdadeiro fim do mundo! E o pior disso tudo é que as grande mentes [brilhantes, magnânimas — e o caramba a quatro] acham que estão criando um universo de coerência para as próximas gerações.

Cara, bastou um Pink Floyd [sabe não o que é? Pesquisa aí rapidinho] para encher a juventude [que hoje já está mais velha, com pessoas casadas, com filhos etc.] com letras de músicas que dizem "Hey! Teacher! Leaves them kids alone", ou seja, "Ei! Professor! Deixe as crianças em paz". Mas por que isso? É que a educação mundial formata seus alunos para o mercado e não para a vida! Ela encara as pessoas como "mais um tijolo no muro" ao invés de outra alma em passagem na Terra. E nisto, quando esses meninos e meninas vão se deparando com valores básicos, que até um anime consegue transmitir melhor, ao invés de terem espaço para aplicar esse aprendizado, acabam por serem canalizados para as besteiras que Kant eternizou em suas metafísicas de araque, que no fim das contas, não conseguiu resolver nada!

Sim, Kant, para o jovem, não significa absolutamente nada! Mas se você perguntar para ele os nomes e quais as posturas das mãos para dez Jutsus, ela te dirá vinte! Sabe não o que é isso? Naruto, meu filho! Naruto... Sabe como fazer um garotinho se interessar por valores? Diga a ele algo como "muito bem, você entende de ninjas, mas agora eu quero ver entender o que é Amakakeru Hiuri Hirameki". Oi? Daí é só apresentar o anime Samurai X [versão da década de 90 ao invés desse outro mais recente], que tem uma direção de arte fenomenal, excelente trilha sonora e conteúdos filosóficos como "uma espada é uma arma. Kenjutsu é a arte de matar. Não importa a maneira como contornas o assunto para dizê-lo: essa é a mais pura verdade. O que a Senhorita Kaoru [que depois se casa com o Samurai X] diz são as palavras de quem nunca teve que matar. Uma ilusão idealista, mas, com certeza, eu prefiro a ilusão da Senhorita Kaoru".

Sacou?

Já não sei como comecei o assunto [doidice de quem escreve de madrugada], mas o "X" da questão é esse aqui: os jovens precisam ser ouvidos! Os adultos precisam entender o que está se passando no universo deles, quais são suas preocupações, para que o entretenimento some ao invés de se tornar um refúgio. Para que os assuntos mais futuros se tornem interessantes [até os devaneios do Kant, quem sabe] e que seja possível tirar algum proveito. Mas como fazer isso se ninguém dá ouvidos para eles? Ficam naquela de dizer "no meu tempo era melhor", mas não mostram, não apresentam, não se esforçam para interagir com os mais novos [o que é burrice pura]. Por isso, digo: não adianta tanta inteligência [que, aliás, nem sei se é] se dela se perde a conexão entre gerações.

Dissemine:

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